📌 Aviso Importante
Olá pessoal! No dia 25/09, das 9h às 11h00, temos um encontro presencial no IFHT - UERJ. Nesta data, iremos discutir o seguinte tema: "A governamentalidade do conhecimento científico (Michel Foucault)".
Espero vocês lá!
✅ Discussões sobre o tema : "A governamentalidade do
conhecimento científico (Michel Foucault)".
✅ Atividades interativas
📢 Não faltem! Espero vocês lá! 🚀
🚀Da "República da Ciência" ao Mercado
Durante grande parte do século XX, vigorou na sociologia da ciência o ideal da "Ciência como Vocação", de Max Weber, e o modelo normativo de Robert K. Merton, que definia a ciência como uma instituição autônoma regida por normas como:
🧑🤝🧑 Comunismo: a propriedade comum das descobertas.
🎯 Desinteresse: a busca pelo conhecimento por si só.
🤔 Ceticismo Organizado: a avaliação crítica e impessoal do trabalho.
Neste modelo, frequentemente chamado de "República da Ciência", o conhecimento era um bem público, e o reconhecimento era a principal moeda de troca. No entanto, a partir das últimas décadas do século XX, um processo profundo de transformação começou a reconfigurar radicalmente essa paisagem. A ciência, cada vez mais integrada aos fluxos econômicos globais, tornou-se um **** central em um novo regime de acumulação capitalista: o capitalismo cognitivo. Neste contexto, assistimos à intensa mercantilização do conhecimento científico, um fenômeno que redefine os fins, os meios e os atores da produção do saber.
💡 O que é o Capitalismo Cognitivo?
O capitalismo cognitivo é uma fase (ou uma mutação) do capitalismo na qual a principal fonte de valor e lucro deixa de ser a produção material em massa (capitalismo industrial) e passa a ser a produção, apropriação e circulação de bens imateriais.
📌 Características Principais:
🧠 Fonte de Valor: Conhecimento, informação, afetos, códigos, símbolos.
🏭 Capital Fixo: O cérebro humano e a capacidade intelectual (o "capital humano").
🔀 Mudança de Paradigma: A ciência deixa de ser um insumo para a indústria e se torna o cerne do próprio processo produtivo.
A biotecnologia, a nanotecnologia, a farmacologia, a inteligência artificial e a ciência de dados são exemplos paradigmáticos de setores onde a pesquisa científica é a linha de produção. O produto a ser comercializado não é apenas um objeto, mas o conhecimento codificado nesse objeto, ou mesmo o conhecimento em sua forma pura (um software, um algoritmo, uma sequência genética).
⚙️ Os Mecanismos da Mercantilização: Como o Saber se Torna uma Commodity
A mercantilização da ciência não acontece por acaso. Ela é viabilizada por uma série de mecanismos institucionais, le**s e políticos:
🔐 1. O Regime de Propriedade Intelectual Fortalecido
O instrumento mais importante é o sistema de patentes. Para transformar o conhecimento (um bem não-rival) em uma mercadoria escassa, é necessário criar rendas de monopólio.
📜 Exemplo: Patentes sobre genes, algoritmos e técnicas fundamentais.
🇺🇸 Marco Legal: A Lei Bayh-Dole (EUA, 1980) permitiu que universidades patenteassem invenções de pesquisas públicas, incentivando a mentalidade empresarial na academia.
🏛️ 2. A Universidade Empresarial (Universidade Empreendedora)
Sob pressão por financiamento e uma ideologia de "eficácia", as universidades se transformam em agentes econômicos.
📊 Novas Métricas de Sucesso: Número de patentes, contratos com a indústria, criação de empresas derivadas (spin-offs).
⚖️ Consequência: A agenda de pesquisa é distorcida, privilegiando temas com potencial de mercado em detrimento de problemas cientificamente relevantes, mas sem apelo comercial.
💸 3. A Financeirização da Pesquisa
O capital financeiro (fundos de capital de risco, grandes corporações) molda a inovação científica com base no retorno sobre o investimento.
🤝 Dinâmica: Aquisição de empresas startups, compra de carteiras de patentes, subordinação da agenda de pesquisa aos interesses dos acionistas.
🚨 As Consequências da Ciência Mercantilizada
Esta reconfiguração traz uma série de consequências profundas e, muitas vezes, problemáticas:
🔗 1. A "Tragédia dos Anticomuns"
Quando o conhecimento é fragmentado em inúmeros direitos de propriedade, a inovação é travada. Desenvolver um novo produto pode exigir licenciar dezenas de patentes, tornando o processo caro e complexo.
📈 2. A Distorção da Agenda de Pesquisa
A "ciência mercantil" segue o dinheiro, criando um desequilíbrio:
➖ Pesquisa Negligenciada: Doenças que afetam populações pobres.
➕ Pesquisa Prioritária: Condições crônicas de populações ricas e desenvolvimento de "produtos" com mercado garantido.
🚫 3. A Erosão da Ciência como Bem Público
A lógica da propriedade corrói os fundamentos da ciência mertoniana:
🔒 Segredo e competição substituem a colaboração aberta.
Dados e resultados são trancados atrás de barreiras de pagamento ou guardados como segredo comercial.
👨🔬 4. A Precarização do Trabalho Científico
Paradoxalmente, o conhecimento é supervalorizado, mas o trabalho do cientista é precarizado:
📉 Precarização: Proliferação de pós-doutorandos com contratos temporários e bolsas instáveis.
📊 Pressão por Produtividade: Métricas de avaliação baseadas em artigos e patentes, criando um ambiente de alta pressão e um "exército de reserva" de mão-de-obra intelectual barata.
⚖️ Conclusão: Um Futuro em Dis**A mercantilização da ciência no capitalismo cognitivo é uma realidade contraditória.
✔️ Ponto Positivo: Canalizou recursos para setores de alta tecnologia, acelerando inovações.
❌ Ponto Crítico: Criou um sistema que frequentemente prioriza o valor de mercado em detrimento do valor social, científico e humano.
O grande desafio contemporâneo é pensar em modelos híbridos e alternativos que capturem os benefícios da inovação orientada para o mercado sem sacrificar os ideais de abertura, colaboração e orientação para o bem comum. A ciência do século XXI é um campo de batalha onde se decidirá se o conhecimento será um instrumento de libertação ou de dominação, um bem comum ou uma mercadoria privada.
🎥 SAIBA MAIS NO VÍDEO A SEGUIR
Como o capitalismo contemporâneo transforma conhecimento e dados em moeda de poder e controle? Neste vídeo intitulado 'Capitalismo Cognitivo e Aceleração Algorítmica', o professor Giuseppe Cocco conduz uma análise sobre as dinâmicas do capitalismo digital que estão remodelando nossa sociedade. A palestra mergulha no processo de mercantilização do saber no contexto do capitalismo cognitivo, explorando como a ciência e a produção de conhecimento são progressivamente transformadas em mercadorias. Com clareza e profundidade, o professor examina os mecanismos dessa transformação—desde a expansão dos regimes de propriedade intelectual e a financeirização da pesquisa até o surgimento da 'universidade empresarial'—e revela como a aceleração algorítmica intensifica essas lógicas.
📄 LEITURA OBRIGATÓRIA
Quer compreender como o conhecimento se tornou a força produtiva central do capitalismo contemporâneo? Este artigo, ancorado na perspectiva marxista, desvenda as contradições do capitalismo cognitivo, onde o saber é simultaneamente motor de valor e campo de conflito. Uma leitura essencial para decifrar as atuais transformações na relação entre capital e trabalho.